quinta-feira, 30 de abril de 2009

Joselias, Segolène e a "Ciência da Abelha"


Olá,
A parisiense Ségolène Michaud fez a aventura da sua vida. Partiu das Ilha Canárias com um colega, num barco à vela de 6 metros até o Maranhão. Foram semanas no atlântico numa viagem acompanhada via internet (google Earth) pela antropóloga da Universidade Federal do Maranhão Rose Panet.
Em São Luís, tivemos a oportunidade de nos conhecer durante a Semana dos Povos Indígenas no Maranhão 2009 e descobrirmos uma grande afinidade: mel.
A partir de uma orientação da nutricionista Conceição Matos, passei a consumir mel diariamente da produção do "mestre" conhecedor da "ciência da abelha", Joselias. Apicultor de uma cooperativa maranhense, Joselias trabalha com abelha africana e Tiúba, estudando e produzindo mel e pólen.
Segolène, atualmente estuda em Paris, duas das mais de 30 línguas maias existentes e se interessa por mitos americanos relacionados ao mel. Apresentada ao "mestre" Joselias, conheceu e encantou-se com a produção do mel e pólen da abelha Tiúba, nativa do Maranhão.
Num bate-papo descontraído e multicultural preciosidades da cultura maia, francesa e da baixada maranhense. " O clima na França não é propício para a apicultura devido a variação de temperatura, mas usamos mel em bolos, doces e no pão com manteiga", disse Segoléne, acrescentando: " o meu interesse é conhecer mais sobre abelha na América para entender mais ainda os ritos dos povos pré-colombianos associados a apicultura. No México existem as abelhas africanas que são mais agressivas que as daqui, por isso são criadas longe do convívio humano". Ela ficou impressionada com as caixas de abelha Tiúba (abelhas sem ferrão) no terraço da casa de Joselias.
O apicultor nos presenteou com uma verdadeira aula sobre o ciclo de produção da Tiúba. "Estou constantemente viajando pelo Brasil e pelo Maranhão para discutir, ensinar e aprender mais sobre apicultura e "lá fora" todo mundo fica impressionado com as propriedades do mel e pólen da Tiúba. Aqui em São Luís, tem um oficial do Corpo de Bombeiros que usou o pólen da Tiúba para auxiliar o tratamento de um câncer. Depois de curado toda família passou a consumir. É proteína pura", disse Joselias.
Segoléne provou e levou para Paris o mel e o pólen da Tiúba. Aliás, levou mais ainda: a simpatia e a ciência de um mestre conhecedor da apicultura no Maranhão: Joselias.
João do Vale já cantava: "A ciência da abelha, da aranha e a minha muita gente desconhece..."
(Na foto acima: Joselias, Segolène Michaud e Marcus Saldanha)
Texto e foto: Marcus Saldanha

sábado, 25 de abril de 2009

Livros na Internet

Olá,
acabei de descobrir um site para baixar livros, nacionais e importados, jornais, revistas e documentos pela Internet. É o ebooksbrasil, com link já adicionado no blog Marcushistorico na seção "visite também os sites". Nele, além dos clássicos da literatura universal encontra-se obras importantes para a pesquisa histórica, tais como, "História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal" de Alexandre Herculano e obras de maranhenses que produziram no séc. XIX, tais como "O Mulato" de Aluísio Azevedo, "Ilíada" de Homero, traduzido para o português por Manoel Odorico Mendes (um dos mais antigos tradutores do Brasil, segundo o Dicionário de Tradutores Literários no Brasil da UFSC) e as obras "Meu Sertão", "Sertão em Flor" e "O Sol e a Lua" de Catulo da Paixão Cearense. Destaco ainda, duas obras contemporâneas em cordel, uma sobre a Balaiada e a outra sobre a Insurreição Negra em Viana, de Magno Cruz (militante do Movimento Negro no Maranhão).
Texto: Marcus Saldanha

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O Esquecido Cabral?



Olá,
Há dez anos visitei a cidade de Santarém, região do Alentejo em Portugal refazendo parte da rota dos "Descobrimentos Portugueses". Na época, outubro de 1999, no Brasil já estavam instalados os relógios do designer gráfico Hans Doner nas capitais brasileiras em contagem regressiva para as comemorações.
Curioso, um episódio da viagem ocorrido na estação de trem de Lisboa que narrarei abaixo:
Pergunto a funcionárias do atendimento a turistas da estação: - Sou brasileiro. Qual a melhor forma de chegar a Santarém?
- O que vais fazer em Santarém?
- Sou professor de História e queria conhecer o túmulo de Pedro Álvares Cabral, respondo.
- Quem foi? Teu parente?
- Não. Uma pessoa importante na História do Brasil. Respondo, surpreendendo-me com a pergunta.
- Melhor seria, já que está cá, conhecer o sul de Portugal. Há belas praias para turistas. Não há muito que ver em Santarém.
Segui curta viagem de "comboio". Em Santarém, desço do trem e não sobra nenhum táxi na estação. Subo uma ladeira por horas até a cidade.
Chego a uma praça com uma estátua de Pedro Álvares Cabral com a inscrição: Descobridor do Brasil. É aqui!
A Igreja de Nossa Senhora das Graças, onde estão os restos mortais de Cabral estava fechada devido a uma greve. Insisti muito para que visse o túmulo. Na inscrição destaca-se a relevância da esposa de Cabral, camareira real.
A guia me disse que os turistas visitam a igreja por cauda de sua arquitetura e poucos brasileiros tinham interesse no túmulo de Cabral.
No ano seguinte a casa de Cabral, vizinha a igreja, em reforma na época da minha visita, foi inaugurada como Casa do Brasil em Portugal, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em Portugal, Cabral me pareceu um ilustre desconhecido.
Texto e Foto: Marcus Saldanha

O Feriado de Tiradentes

Olá,
quando eu era criança adorava o personagem histórico Tiradentes: era feriado, sabia seu nome completo de e o seu apelido engraçado. A primeira imagem que vi de Tiradentes foi no livro da escola, parecia Jesus Cristo. (representação de Décio Vilares de 1928)
Na adolescência era comum a pegadinha: em qual museu fica a cama que morreu Tiradentes?
Pois é, na faculdade, durante um congresso de estudantes de História em 1997 conheci algumas cidades de Minas Gerais, em especial Ouro Preto.
Visitei os museus, as igrejas, andei pelas ruas e fiquei parado por horas ali diante do Museu de Minerologia mirando o Museu da Inconfidência.
Na sala de aula discuti várias vezes com meus alunos sobre a Incofidência Mineira, os "Autos da Devassa", o "Cancioneiro da Inconfidência" de Cecília Meirelles, mas sempre escapou o uso da imagem de Tiradentes ao longo do tempo para justificar a origem do feriado.
Em 1890, por exemplo, os republicanos viram no idealista Joaquim José da Silva Xavier, enforcado em 1792, um mártim e decretaram feriado nacional, desde então muito festejado, assim como o 15 de novembro. A data também foi comemorada também com áurea de patriotismo nos "anos de chumbo" da ditadura militar. Curioso, pois se estivesse vivo nesse período, Tiradentes certamente, seria uma das vítimas do DOPS, acusado de subversão.
No plano dos inconfidentes constavam a industrialização do Brasil, a criação de uma universidade em Vila Rica, a implantação do serviço militar obrigatório e entre outras coisas, pensões para mães com muitos filhos, para incentivar o povoamento do território nacional (Olha o verdadeiro pai do Bolsa Família aí gente!!!)
Hoje é feriadão e há anos não há nenhuma manifestação em São Luís que relembre o episódio histórico. Além do post sobre Tiradentes e a Inconfidência Mineira, achei interessante relembrar a viagem de estudante que fiz à antiga Vila Rica de Tiradentes, Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, do "traíra" Joaquim Silvério dos Reis (que dizem se desterrou no Maranhão onde matou-se anos depois da Devassa) e do meu aniversário num julho frio de Ouro Preto, aos 21 anos de idade quando ainda não declarava imposto de renda. (foto)

Texto e Foto: Marcus Saldanha

domingo, 19 de abril de 2009

Os Krenyê-Timbira: "Resistimos e Existimos"

Olá,
Hoje, quando se comemora no Brasil o Dia do Índio, achei oportuno postar a matéria que fiz com Ademar Krenyê Timbira (foto), representante do povo Krenyê-Timbira (tronco linguístico Jê), formado por 150 pessoas, vivendo atualmente na Aldeia Pedra Branca, a 27 km do município de Barra do Corda. Considerados extintos por muitos, os Krenyês-Timbiras resistem e existem. A conversa com Ademar rolou na Semana dos Povos Indígenas no Maranhão 2009, um pouco antes da mesa redonda que discutiu o tema "Terra Indígena, Meio Ambiente e Etnodesenvolvimento", da qual fizemos parte. Acompanhe a matéria:
"Estamos pedindo o reconhecimento do nosso território e do povo que foi expulso da sua terra tradicional (Pedra do Salgado- Bacabal/MA) ocupada atualmente por fazendeiros, por não-indígenas. Passamos por várias aldeias: guajajaras, gaviões... a gente vem sofrendo a algum tempo. Na década de 80 houve um conflito entre o povo Kreniê-Timbira e os Gaviões na aldeia Governador (Amarante-MA). Dessa época que viemos para a atual região da Terra Indígena Dominial Rodeador, em nome de krikatis e gaviões."
* Terras Indígenas Dominiais são aquelas que pertencem a todos os povos.
Atualmente, Ademar vem tornando-se uma liderança, representando o desejo de seu povo pelo seu território. Um documento já foi enviado para a FUNAI solicitando a visita do grupo técnico, com cópia encaminhada ao Ministério Público em São Luís.
O grupo que está se reorganizando, já fez uma visita a Pedra do Salgado e identificaram no local as três mangueiras, onde os mais velhos faziam os rituais de encontro com os espíritos, plantadas pelos bisavôs de Ademar e que demarca o território Krenyê.
Por volta de 1956, com epidemia de sarampo e catapora, os indígenas achavam que o local estava afetando o seu povo e mais a pressão dos fazendeiros. O grupo pequeno não resistiu e aceitou a opção de mudar-se para aldeia Pindaré (Bom Jardim). E daí foram para o Rodeador em acordo com os Krikatis, Gavião e Canelas.
O povo dado por muitos como extinto, continua resistindo e existindo na luta dos povos indígenas por seus direitos.

Os Kreniês-Timbiras, cujo nome vem de um pássaro, conhecido pelos não-índios como "Jandaia" têm em seus traços culturais a aldeia circular, pintura corporal listrada como a cobra coral utilizando o urucum entre as formas geométricas, o cocar todo de algodão trançado, com poucas penas, que quando usadas são as mais branquinhas e na Festa da Menina Moça (ritual de passagem da adolescência) corrida de toras e flechas, onde dois grupos são divididos, o Camaleão e o Cobra e durante o dia fazem uma espécie de revezamento de bastão só que com flechas numa corrida circular.
Texto e foto: Marcus Saldanha

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Encerramento da Semana dos Povos Indígenas no Maranhão 2009

Joana Bitencourt (Diretora do Centro de Criatividade Odylo Costa Filho); José Damasceno (Coordenador do Departamento de Etnologia do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia); Deusdédith Carneiro (Diretor do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia; Marcus Saldanha (Historiador); Sônia Guajajara (COAPIMA) e Joãozinho Ribeiro (Secretário de Cultura do Estado Maranhão).
Na plenária de encerramento o compromisso da Semana dos Povos Indígenas no Maranhão como um evento permanente do calendário no Estado do Maranhão para anualmente discutir com os indígenas política, cultural, economia e religiosidade; desfazer preconceitos arraigados na sociedade dos não-índios e desfrutar da diversidade cultural, fundamental para o enriquecimento humano.
Destaco a fala de Sônia Guajajara para encerrar os posts com a cobertura da Semana dos Povos Indígenas no Maranhão 2009: "o mundo tá cheio de conhecimento, mas pouca sabedoria".

Até o dia 21 de abril a exposição de artefatos arqueológicos e peças etnológicas do acervo do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão continua no Centro de Criatividade Odylo Costa Filho.

Texto: Marcus Saldanha
Foto: Laíza Braga

Terras Indígenas, Meio Ambiente e Etnodesenvolvimento

A última mesa redonda da tarde (17) começou com o canto e a dança guajajara que revigorou a plenária do Teatro Alcione Nazaré.
Em seguida a discussão sobre Terras Indígenas, Meio Ambiente e Etnodesenvolvimento. Na mesa Sílvia Cristina Puxcwyj Krikati (Liderança Aldeia São José - Krikati); Jackson Boéres Jr. (FUNAI); Marcus Saldanha (Historiador); Ademar Krenyê (Liderança Krenyê-Timbira) e Cléber Karipuna (COIAPI).
A idéia era discutir a forma tradicional como os povos indígenas tratam a terra, sua relação com o meio-ambiente, seu território. No final ficou claro que a presença dos indígenas em seus territórios significam preservação ambiental. Pois em sua maioria respeitam o local onde nasceram, vivem e estão enterrados seus mortos. São capazes de reconhecer seu território pela mata que a circunda. Enfim, como destacou Cléber Karipuna: "os índios não são o empecilho para o desenvolvimento do país, nós também queremos o desenvolvimento, mas com o menor impacto possível.
Texto Marcus Saldanha
Fotos: Renata Carvalho

Etnografia visual nas Sociedades Indígenas


Hoje, 17, pela manhã, a mesa redonda 5 Mídia, Cinema e Fotografia: Etnografia Visual nas Sociedades Indígenas, formada por Rose Panet (SEDUC); Cláudio Zannoni (Depto. de Antropologia da UFMA e Murilo Santos (Cineasta e Professor da UFMA) abriu uma ampla discussão sobre a forma como os índios são retratados na mídia, o desejo dos índios fazerem seus próprios registros áudio-visuais, direitos autorais e uso de imagens indígenas entre outras questões. Lourenço Krikati, relembrou um episódio que o deixou surpreso: "encontrei uma foto do povo Krikati exposta na França, e nós não tínhamos nem conhecimento da exposição".
Para encerrar a mesa redonda foi exibido o documentário O Massacre de Alto Alegre seguido de um instigante debate com o público.
Texto e Foto: Marcus Saldanha

Movimento Indígena Nacional


Na abertura dos trabalhos na manhã do terceiro dia da Semana dos Povos Indígenas no Maranhão os indígenas organizaram e comandaram a Mesa Redonda Movimento Indígena Nacional formada por Marcos Apurinã, Rondônia (Vice-Presidente da COIAPI- Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas); Lourenço Krikati (moderador da mesa, coordenador da COPIMA- Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas no Maranhão); Cléber Karipuna, Amapá (tesoureiro da COIAPI) e Sônia Guajajara (COIAPIMA).
O palestrante Marcos Apurinã apresentou o documentário Campanha dos Povos Indígenas na Amazônia: Presente, e Futuro da Humanidade. Em sua fala destacou: "povos indígenas sem terra e terra sem indígenas não tem significado."
Mas a fala é na fala de Sônia Guajajara que a plenária de não índios teve oportunidade de fazer várias reflexões acerca de seus preconceitos: " Eles convidam a gente pros lugares pra falar e acham que a gente não precisa de uma preparação, quer que a gente vá pelado, com os adornos e estranham quando a gente atende celular, pede pra gente tirar o óculos , como se índio não tivesse problema de vista. É a idéia de que índio tem que tá no mato. Não entendem a evolução. Hoje a gente vem pra cá e sabe discutir na caneta. Não adianta vim aqui só pra dançar o tempo todo pra não índio ver e fotografar. Tem que discutir. A dança é pra celebrar.
O pessoal ainda não tem muita idéia do que é ser povos indígenas. A gente trabalha, estuda, pensa...temos parentes formados em História, Direito..."
Destacou ainda que hoje as maiores dificuldades não são com o Governo, mas sim com o Supremo Tribunal Federal, portanto com as esferas jurídicas.
Lourenço Krikati, apontou ainda esse tempo como de avanços para os povos indígenas, principalmente devido o CNPI (Conselho Nacional de Política Indígenas) que tem fortalecido as ações da FUNAI no Brasil.
Muitos indígenas do Maranhão não puderam participar desse debate devido a dificuldade de transporte e acesso a São Luís devido a instabilidade política e as fortes chuvas dos últimos dias no Maranhão. Porém, que tem participado do evento, além de desfazer preconceitos históricos, tem a oportunidade de participar de discussões organizadas e dirigidas pelos próprios índios, que sabem falar, e muito bem, sobre si seus problemas. Moderar e discutir sobre as políticas públicas referentes aos povos indígenas.
Texto e foto: Marcus Saldanha

Pintura Corporal e Nas Telas - Troca de Experiências


Ontem, 16, os índios guajajaras ministraram oficinas de pintura corporal. A guajajara Aline nos explicou que a pintura é preparada do genipapo. Depois de feita no corpo, mesmo lavando permanece por até 15 dias, dependendo da mistura da tinta. Disse ainda que é muito difícil se pintar, por isso, pede-se a outros que façam a pintura, para que fique mais bonita, afinal de conta, os traçados dos desenhos, o tamanho e a posição que fica no corpo identifica o povo.

Alunos e docentes do colégio Lara Ribas, no bairro do Santa Cruz que visitaram a Semana dos Povos Indígenas na tarde desta quinta-feira ficaram encantados com essa troca de experiências com os indígenas.


Em outra sala, os indígenas participaram da oficina "Pintura em Tela" ministrada pela administradora regional da FUNAI - São Luís, Cláudia Cristina Lobo.

Textos e fotos: Marcus Saldanha