terça-feira, 12 de junho de 2012

Largo dos Amores

Praça Gonçalves Dias - Cartão Postal de 1914 a partir de foto de Gaudêncio Cunha


"Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!"


Fragmento do poema "Se se morre de amor" do poeta maranhense Gonçalves Dias que trata das questões do amor falso e verdadeiro, do amor passageiro das festas e bailes e do amor puro e verdadeiro. E olha que de amor o poeta entendia: apaixonou-se por Maria Amélia, mas não teve o consentimento da família dela para casar-se. Era homem de cor e apesar de poeta de reconhecimento nacional, a sociedade da época não permitia tal enlace. Maria Amélia acabou casando-se com um comerciante de origem portuguesa e Gonçalves Dias faleceu em um naufrágio quando voltava da Europa para São Luís. 


O antigo largo da Igreja dos Remédios, fotografada por Gaudêncio Cunha no início do século XX era local de concentração na cidade da Festa dos Remédios e foi palco do desenrolar de muitos casais maranhenses. Não à toa, o local oficialmente batizado de Praça Gonçalves Dias é conhecido na cidade por Largo dos Amores.


A praça tem, ao seu centro a estátua de seu maior poeta romântico sobre uma palmeira imperial ornada com motivos clássicos, bancos convidativos para casais apaixonados, coreto, escadarias que escondem segredos e escorrem em direção a Beira-Mar, e sobretudo, uma romântica e bela vista do pôr do sol sobre o mar. Não à toa, boa parte dos casais maranhenses escolhem a Igreja dos Remédios para casar e a praça para compor o álbum de fotos dos noivos.


Foto: Higor Fad

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Fonte dos Cadeados

Fuente de los Candados, Montevidéu. Foto Marcus Saldanha
Quer guardar o seu amor para sempre com chave e cadeado? Basta ir até a avenida 18 de julho no centro de Montevidéu, gravar as inciais do casal no cadeado e prender na Fuente de los Candeados (Fonte dos Cadeados). Segundo a lenda, o casal não só ficará junto para sempre, como um dia voltará a visitar o mesmo lugar.

Feita com pedra vulcânica na cidade de Puerto Vallarta, no México a fonte foi instalada recentemente e ficou muito tempo sem água até que há poucos anos alguém chegou e colocou o primeiro cadeado. Seguiram-se mais e mais outros até que hoje virou uma atração turística da capital uruguaia.

A fonte, tal como o amor, às vezes chega de um jeito inesperado e aos poucos se transforma em algo em que não se pode mais viver sem ele, ou no caso da fonte, sem ela.

domingo, 10 de junho de 2012

Banho de Sol em Vinã del Mar

Plaza Francisco Vergara. Foto: Marcus Saldanha
Vinã del Mar no Chile é parte da grande metrópole de Val Paraíso, a apenas duas horas de Santiago. Seu nome vem da primeira fazenda da região e sua vocação natural para a produção de vinhos. Cidade pequena com cerca de 280 mil habitantes foi escolhida para receber a casa de veraneio presidencial e a Seleção Brasileira de Futebol na Copa de 1962.

Passeio pelas ruas do centro; compras na Calle de Cristal, city-tour de charrete; fotos no relógio de flores, diante da escultura "La Defensa" de Auguste Rodin, no local de desembarque de Giuseppe Garibaldi (revolucionário italiano) ou no único Moai fora da Ilha de Páscoa; visita ao Castelo Wulff;  apostas num cassino, pôr do sol na praia...são tantas opções para um dia romântico que fica difícil definir a "cereja do bolo" de Viña del Mar.

Mas que tal o bom e velho namoro despretensioso na praça tomando sol? Ou como dizem os gaúchos, passar o dia simplesmente "lagarteando".

sábado, 9 de junho de 2012

Flores em Guaramiranga

Foto: Marcus Saldanha

Vinho, fondue, chocolate quente... Não você não está em Gramado ou Campos do Jordão, mas a 110 km de Fortaleza, no Ceará. Chalés nas montanhas, cachoeiras e flores fazem de Guaramiranga um destino romântico na Serra do Baturité.

A cidade atualmente é a maior exportadora de flores do Brasil e em 2008 foi eleita uma das mais românticas do país. Para aproveitar o que há de melhor por lá num passeio a dois é possível durante o dia fazer trilhas pela Mata Atlântica, rapel, tiroleza ou explorar as cachoeiras da região. Depois no Pico do Alto sobre o Maciço do Baturité, a mais de 1000 m de altitude o casal pode curtir um pôr do sol agarradinho e uma bela vista panorâmica da cidade com um frio que pode chegar até 12 graus em pleno sertão cearense.

À noite, depois do jantar com opções de gastronomia alemã, italiana ou francesa o casal pode curtir um reggae badalado no Odilon Bar.  Para os mais festeiros, informem-se sobre o calendário cultural da cidade, que conta entre outras atrações, com um vigoroso festival  de jazz e blues durante o carnaval.

Mas o casal tá procurando sossego? Tá certo! Sem os eventos a cidade fica tranquila, com trilhas, cachoeiras e pousadas vazias. E não se preocupe, desta vez ele não vai esquecer as flores. Elas estarão por toda parte. O perfume das flores nas ruas será uma eterna recordação do casal.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Vista para o Titicaca

Foto: Marcus Saldanha

Imagina abrir a janela do quarto e dar de cara com esse cenário paradisíaco: solo rochoso das montanhas contrastando com o azul turquesa das águas do Titicaca e o azul celeste do céu. Adiante outra ilha sagrada (Isla de la Luna) e nuvens brancas com a Cordilheira dos Andes ao fundo. Esse cenário perfeito fica na Bolívia, em Copacabana, mas precisamente na Isla de Sol.

Nessa região, centenas de séculos atrás Manco Cápac e sua esposa Mama Orcllo emergiram para fundar, a mando de seu pai e Deus do Sol o império Tawantisuyo (povo pré-incaico que deu origem a civilização Inca). Lá os Incas construíram templos e monumentos em homenagem ao sol e a lua que ainda hoje podem ser visitados.

Habitada atualmente por seus descendentes Aymarás que vivem basicamente da agricultura de batatas e criação de animais. Aos poucos, a ilha tem se consolidado como rota turística de aventureiros por conta de suas trilhas na parte norte e sul e pessoas que buscam sossego em suas pousadas ou no único albergue disponível.

Na ilha não é difícil conseguir um quarto com vista para o Titicaca - o maior e mais alto lago navegável do mundo, para compartilhar no maior amor. Difícil mesmo é encarar a subida íngreme da escadaria Inca do porto até a vila com bagagens nas costas na altitude de mais de 3 mil metros. Uma verdadeira prova de amor!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Cupido de Gramado

Centro de Informações Turísticas. Foto: Marcus Saldanha
Gramado é indiscutivelmente um destino romântico já que muitas opções na cidade conspiram para isso: vinho, chocolate quente, fondue e sobretudo o frio. Como resistir a baixas temperaturas senão agarradinho em quem você ama. São inúmeros hotéis confortáveis e pousadas aconchegantes que garantem uma lua de mel perfeita ou aquele fim de semana inesquecível. A mordomia é tão grande que alguns restaurante te buscam no hotel de limusine.

Se o casal topar encarar o frio lá fora, a dica é andar de mãos dadas pela Rua Coberta, tirar fotos nos termômetros da cidade e nas fachadas de arquitetura alemã e italiana, Lagoa Negra e dos Cisnes, assistir uma sessão no cinema do Festival de Gramado, visitar uma fábrica de chocolate, andar de pedalinho, patinar...

Mas se o clima esquentar, debaixo das cobertas, é claro! Você escolheu o lugar certo e foi flechado pelo cupido: o frio!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A romântica e cheia de lendas rua dos Suspiros

A partir de hoje até o Dia dos Namorados começa uma série de postagens aqui no Marcus Histórico sobre lugares românticos. Começamos com "La Calle de los Suspiros" em Colonia del Sacramento, no Uruguai.
Foto: Marcus Saldanha
A rua dos Suspiros na parte antiga de Colonia del Sacramento no Uruguai é um pitoresco caminho reservado aos pedestres, sem calçadas, coberta de pedras coloniais e lendas. Construída em desnível para que a água da chuva escorra por ela até o Rio da Prata, foi séculos atrás reduto de sedutoras prostitutas que arrancavam suspiros de marinheiros portugueses e espanhóis que desembarcavam na cidade em busca de diversão.

Porém, não é a versão histórica que fascina, mas as lendas como a de que condenados a morte eram levados pela rua para serem afogados no Rio da Prata. Ou da romântica moça que ao esperar seu amado na rua, fora apunhalada por um mascarado e antes de morrer dera um grande suspiro. Ou a mais recente, que atrai casais em lua de mel, de que um beijo dado na rua dos Suspiros é garantia de amor eterno.

O fato é que a rua compõe um cenário perfeito para um passeio a dois e juras de amor.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Exposição fotográfica revela o Terecô e a Magia dos Tambores da Mata Codoense

Foto: Divulgação



Fotógrafo Márcio Vasconcelos expõe trabalho sobre Terecô na Casa de Nhozinho

Terecô é a denominação dada à religião afro-brasileira tradicional de Codó – uma das principais cidades maranhenses, localizada na zona do cerrado, na bacia do rio Itapecuru, a mais de 300 km de São Luís. É também conhecido por “Encantaria de Barba Soêra” ou Bárbara Soeira (entidade sincretizada com Santa Bárbara) e por Tambor da Mata, ou simplesmente Mata (em alusão à sua origem rural ou para diferençá-lo da Mina surgida na capital). 

Embora o Terecô tenha se originado de práticas religiosas de escravos das fazendas de algodão de Codó e de suas redondezas, sua matriz africana é ainda pouco conhecida. Apesar de exibir elementos jeje e alguns nagô, sua identidade é mais afirmada em relação à cultura banto (angola, cambinda) e sua língua ritual é, principalmente, o português. 

Geralmente no Terecô os pais e mães de santo são também curadores, embora existam na região “raizeiros”, preparadores de “mezinhas”, que são ali mais conhecidos por “cientistas” (doutores do mato) do que por terecozeiros, macumbeiros ou umbandistas. Em Codó, tanto no passado como na atualidade, alguns terecozeiros ficaram também famosos realizando “trabalhos de magia” por solicitação de clientes ávidos de vingança, de políticos, ou de outras pessoas dispostas a pagar por eles elevadas somas, o que lhe valeu a fama de “terra do feitiço”. Afirma-se que nesses “trabalhos” e práticas terapêuticas os terecozeiros associam à sabedoria herdada de velhos africanos, conhecimentos indígenas, práticas do catimbó, da feitiçaria europeia e que também se apoiam no Tambor de Mina, na Umbanda e na Quimbanda. 

No Terecô, como no Tambor de Mina, as entidades espirituais são organizadas em famílias sendo a maior e mais importante a da controvertida entidade espiritual Légua Boji Boá da Trindade, apresentado em Codó como “príncipe guerreiro”, filho de Dom Pedro Angassu (conhecido em São Luís como o “representante de Xangô na Mata”) e como “preto velho angolano”. Légua Boji é também apresentado em terreiros da capital maranhense como vodum cambinda (Casa das Minas-Jeje), ou como um misto de Légba (Exu) e do vodum jeje Poliboji.

Embora no Terecô sejam cultuados voduns africanos jeje-nagô (como Averequete, Sobô, Ewá), muito conhecido no Tambor de Mina da capital, os transes ocorrem principalmente com “voduns da Mata”. É bom lembrar que, não obstante ser o Terecô um culto afro-brasileiro, nele as práticas curativas são muito desenvolvidas. Tudo indica que o Terecô se organizou primeiro em povoados negros de Codó e de municípios vizinhos, mas só se tornou mais conhecido depois que se desenvolveu na cidade de Codó. Segundo Costa Eduardo, em 1943, no povoado de Santo Antônio dos Pretos, o Terecô era mais conhecido por Pajé ou por Brinquedo de Santa Bárbara.

Durante algum tempo acreditamos que a palavra Terecô poderia ter se originado da imitação do som dos tambores da Mata (“terêcô, terêcô, terêcô”), em virtude de não havermos encontramos nem Codó e nem em São Luís uma definição etimológica paralela. Mais recentemente a antropóloga e linguista baiana Yeda Pessoa de Castro esclareceu que ela pode ser de origem banto e ter sido derivada de “intelêkô” e ter o mesmo significado que Candomblé.

A memória dos codoenses registra uma fase inicial do Terecô em que os negros das fazendas de algodão do Município de Codó realizavam seus rituais religiosos na “mata do coco babaçu”, longe da vista dos senhores, em seguida, após a abolição da escravatura, quando os negros da cidade realizavam seus rituais às margens da Lagoa do Pajeleiro, às escondidas da polícia, com quem entravam frequentemente em conflito. Contudo, analisando-se os relatórios da Missão Folclórica, criada por Mário de Andrade, que percorreu o Norte e Nordeste no final da década de 30, a “linha de Codó” já marcava sua presença em terreiros de Mina de São Luís (Maximiana), de Belém (Sátiro), e que surgiu no Pará com o nome Babassuê.

Embora muito temidas, as entidades do Terecô são depositárias de grande confiança e encaradas como defensoras pelos terecozeiros.

Mundicarno Ferretti
Antropóloga

O Exposição

Levando em consideração a importância e o misticismo da cidade de Codó (MA) dentro do culto à religião de matriz africana, que nesta região ganhou a denominação de Terecô, e a grandiosidade da maior festa da umbanda do Maranhão, promovida pelo Mestre Bita do Barão de Guaré, o Projeto “Terecô – a Magia dos Tambores da Mata Codoense” tem como objetivo realizar uma pesquisa e uma documentação fotográfica, sob a forma de um ensaio artístico, durante todo o ciclo do Festejo dos Santos e Orixás da Tenda Espírita de Umbanda Rainha Iemanjá de propriedade do sacerdote citado, um dos mais influentes babalorixás do Maranhão e que acontece anualmente no mês de agosto em Codó, autodefinida como a “capital mundial da feitiçaria”.

Além do Terreiro do Mestre Bita serão também pesquisados e fotografados rituais e celebrações em outros templos de semelhante importância dentro deste culto afro maranhense, tais como as casas de Maria do Santo, Domingos Paiva, Aluízio Mota e, no povoado quilombola de Santo Antônio dos Pretos, o terreiro de Irene e Ivone Moreira, que no dia dedicado a Santo Antônio promove uma grande festa em homenagem ao padroeiro do lugar.


O Fotógrafo

MárcioVasconcelos, fotógrafo profissional  independente há mais de 20 anos e há quase uma década vem se dedicando a registrar as manifestações da Cultura Popular e Religiosa dos afro-descendentes no Estado do Maranhão.
          
Autor do projeto Nagon Abioton – Um Estudo Fotográfico e Histórico sobre a Casa de Nagô, aprovado na Lei Rouanet e no Programa Petrobras Cultural/2009, editado na forma de livro sobre um dos terreiros mais antigos do Tambor de Mina no Maranhão.

Vencedor do 1º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras/2010 (Fundação Cultural Palmares/Petrobras) com o projeto Zeladores de Voduns do Benin ao Maranhão. Exposição Fotográfica que mostra as semelhanças entre Sacerdotes de culto a voduns na África e no Brasil.

Selecionado para leitura de portfólios no Trasatlantica/PhotoEspaña 2012 com o projeto Zeladores de Voduns do Benin ao Maranhão.

Vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia com o projeto Na Trilha do Cangaço – Um Ensaio pelo Sertão que Lampião pisou.
          
Finalista do Prêmio Conrado Wessel 2011 com o projeto Na Trilha do Cangaço – Um Ensaio pelo Sertão que Lampião pisou.

Serviço:
Terecô – A Magia dos Tambores da Mata Codoense
Exposição Fotográfica de Márcio Vasconcelos
Projeto aprovado no Edital Universal de Apoio a Cultura Maranhense

Local: Casa de Museu Casa de Nhozinho
Rua Portugal, 185 – Centro Histórico -  São Luís – MA - (98) 3218-9951
Visitação: Terça a domingo, 9h às 18h

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mochilão de Julho – Espírito Desbravador e Aventureiro

Mochilas e tênis - um estilo de vida

Se tudo der certo, neste fim de mês começa o quarto Mochilão de Julho. Será o quarto em quatro anos consecutivos. O Mochilão, de uma forma geral consiste em uma viagem por vários lugares com a mochila na costa, sem o contrato de um roteiro com agência turística para reservar hotéis, pousadas e passeios em grupo com guia de viagem. Significa, enfim viajar ao sabor da aventura intuitiva de desbravar o desconhecido com algumas informações e pouco dinheiro no bolso.

No primeiro ano eu e Angela, minha esposa, apaixonados por viagens, mochilamos pelo Rio de Janeiro e Sâo Paulo, incluindo cidades litorâneas do interior. O mote havia sido a Festa Literária de Paraty.  Antes disso, tínhamos feito juntos outros mochilões mais curtos pelo Piauí (Encontro dos Rios em Teresina, Parque Nacional de Sete Cidades, Cachoeira do Urubu e Parnaíba) e Ceará (Parque Nacional Serra de Ubajara, Viçosa do Ceará, Tiaguá, Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga) além de vários destinos no Maranhão.
Museu do Licor, Viçosa do Ceará. (2009)

O curioso é que ambos, antes de nos conhecermos, já tínhamos mochilões bem surrados pelos bagageiros de ônibus e esteiras de aeroportos. Angela já havia andado pelo Rio, Ceará, Bahia e Pará. E eu havia viajado bastante pelo Maranhão, além de vários lugares do Brasil e a rota dos Descobrimentos Portugueses em Portugal (2009).

No segundo Mochilão de Julho, saímos em lua de mel de São Luís para Porto Alegre com uma escala em Florianópolis. Alguns dias na capital gaúcha e seguimos de ônibus para o Uruguai (Punta del  Leste, Montevideo e Colonia del Sacramento). Não sabíamos nada de espanhol  - aprendemos o que era desayuno no café da manhã do ônibus.
Santiago, Chile. (2010)

Sem nos intimidar com as barreiras culturais fomos indo em direção a Buenos Aires onde passamos muito sufoco para comer: “tengo fome!”, dizia ao invés do correto “tengo hambre”, fora os falsos cognatos usados inadequadamente. Media luna, tango, parrillada e lá vamos nós atravessando a Cordilheira dos Andes, passando pelo gelado Aconcágua em direção ao Chile. A neve, Santiago, Val Paraíso, Vinã del Mar e o ouvido um pouco mais treinado  para o idioma local, o diálogo portunhol fluindo e a crescente convicção de começar a estudar e aprender a língua para explorar o vasto continente sul-americano. Estavam definidos os próximos destinos.

Voltamos para o Brasil pela Serra Gaúcha (Gramado, Canela, Bento Gonçalves, Farroupilha, Carlos Barbosa) e para o calor do Maranhão. Um ano de planejamento lendo guias, mapas, relatos de outros viajantes, assistindo documentários para formatar a segunda parte do Mochilão para América do Sul andina: Bolívia e Peru, e ainda o Paraguai.

Em julho de 2011 saímos de São Luís para Campo Grande de avião, e de lá para Corumbá, atravessando o Pantanal sul mato-grossense de ônibus intermunicipal. De ônibus municipal seguimos até a fronteira da Bolívia cruzada a pé. De táxi até a estação de trem de Quijarro. E lá estávamos nós no mítico Trem da Morte. Nele, seguimos pela Bolívia até Santa Cruz de la Sierra, depois de ônibus até a altitude de La Paz e o lago Titicaca em  Copacabana. Atravessamos para o Peru, Puno (Ilhas Flutuantes de Los Uros), Cuzco, Machu Picchu e o Vale Sagrado dos Incas.
Ilhas flutuantes dos índios Uros, Puno, Peru. (2011)

De volta à Bolívia visitamos a tranqüila Sucre e a histórica mina de Potosí. Até voltar a La Paz, seguir por Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra de novo. Entramos no Paraguai de avião aproveitando o baixo valor das passagens aéreas bolivianas, para de ônibus novamente cruzar a fronteira brasileira até Foz do Iguaçu. De avião finalmente o retorno para São Luís via Curitiba.

Quando se pega o gosto de viajar ao sabor do vento, mesmo que somente durante um mês de férias ou até mesmo um feriado prolongado é impossível parar, coisa de vício mesmo. Não é uma atividade barata, e às vezes as viagens longas de ônibus e as conexões aéreas são muito cansativas. É preciso muita persistência e força de vontade para manter um projeto durante o ano inteiro. Tudo é uma questão de escolha, foco e economia.

A motivação dos Mochilões geralmente é histórica e cultural com visita a patrimônios históricos e museus, mas sem deixar de aproveitar praias ou outras atividades de aventura. Somos um casal essencialmente diurno, o que nos permite focar nos pontos de interesse da viagem. Tudo é registrado na Nikon d 5000 ou numa portátil (mais discreta que usamos em lugares com maior risco de assalto). O material é compartilhado pelo tuíter e agora também facebook  instantaneamente onde há conexão wi-fi durante a viagem e depois viram postagens do blog Marcus Histórico  e do álbum do Flickr.
Compartilhando a viagem na internet. (2011)

Este ano a subida do dólar ameaça o roteiro que foi pensado no final do Mochilão passado. As passagens foram compradas em dezembro do ano passado. Começamos num roteiro aéreo São Luís-Boa Vista e de lá vocês terão que nos seguir para saber no que vai dar. Às vezes, tudo tá na cabeça e no papel e de repente muda: aquela cidade, aquele país, aquela trilha, aquela praia, aquele museu...

O que não muda é espírito desbravador e aventureiro que sempre fala mais alto. Sempre perguntam: qual a melhor cidade? O melhor lugar? E sempre respondo:  - o próximo! Posso dar dicas e recomendações de vários lugares, mas o próximo destino é sempre o melhor.

Fica a dica: leia e inspire-se. Fim de junho começa o Mochilão. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Aproveitando Paraty ao Máximo

Tenda dos autores Flip 2009. fotos: Marcus Saldanha

A partir desta segunda-feira, 04 de junho começa a correria pela internet para garantir os ingressos para a programação da Festa Literária Internacionalde Paraty - Flip que acontece de 4 a 8 de julho. Senão a melhor, a mais badalada do Brasil. Serão palestras, shows, saraus, lançamento de livros...A dinâmica se repete já alguns anos: 5 dias de palestras das 10:30 às 22 hs  (você não vai conseguir assistir a todas), um show de abertura, mais um durante a semana e um encerramento com a cidade já vazia.

Você pode investir 40 reais para conseguir assento na Tenda dos Autores onde ficam os palestrantes e um público, digamos - privilegiado. Uma opção mais barata é ficar na Tenda do Telão e pagar apenas 10 reais para ver as palestras, mas sem a opção de interagir com os autores. E No final de cada bate papo, todos correm para a fila dos autógrafos perto da Livraria da Vila.

Enquanto isso, na Casa de Cultura rolam bate papos e exibições de vídeos e filmes, pelas ruas algumas intervenções poéticas com a devida autorização da prefeitura, a Flipinha na Praça da Matriz para a criançada, a Flipzona para os adolescentes e a OffFlip nos restaurantes, bares e sebos para os descolados.

A Flip muda a rotina da cidade, que atualmente tem um calendário cultural interessante envolvendo uma parte dos moradores e atraindo muitos artistas e turistas durante os eventos. Porém, não será surpresa assistir a uma passeata de populações indígenas ou quilombolas da região, ou até mesmo ouvir queixa de moradores que não compõem o staff do evento.

Apesar disso é uma festa que vale a viagem num ambiente onde se respira literatura e história,  com clima agradável de julho no Rio de Janeiro. Tente chegar um dia antes para ver toda a montagem da grande estrutura da FLIP e ficar por alguns dias depois, renegociar o preço das diárias e aproveitar uma cidade e praias bem mais vazias e, sobretudo, esticar pelos arredores.

Calçamento pé-de-moleque do centro histórico de Paraty. Foto Marcus Saldanha

Uma cidade para além da Flip

Paraty é uma cidade ligada ao ciclo do ouro e a maçonaria, por lá passaram tropas de viajantes e funcionários régios que levavam o ouro das Minas Gerais em direção ao litoral para enviar para a metrópole portuguesa. É possível fazer uma parte desse Caminho do Ouro (4km da antiga Estrada Real) construído por escravos nos séculos XVII a XIX a partir da trilha dos índios guaianazes no atual Parque Nacional da Bocaina.

Basta seguir na estrada em direção a Penha, 8,5 km na Paraty-Cunha. Você pode comprar o voucher nas agências de turismo da cidade ou no Centro de Informações no local. Ônibus do centro te leva até a entrada por 3 reais, mas demoram muito. A Trilha não é barata, por volta de 20 reais por pessoa e o passeio dura umas 3 horas com guia local e aquela tradicional aula de História.

Ao lado do Centro de Informações do Caminho do Ouro visite o Engenho D´ouro que produz cachaça artesanal envelhecida em barris de carvalho, além de sabores suaves como a cachaça caramelada, misturada ao melado, folhas de tangerina e Gabriela com cravo e canela. A Moenda que funciona como roda d´agua, a casa de farinha e o monjolo movido a água estão em pleno funcionamento. De lá a saída de caminhadas guiadas para a cachoeira do Tobogã.

 Além disso, você pode visitar a Fazenda Murycana do século XVII, parada obrigatória nos séculos passados para o escoamento de mercadorias via Paraty para boa parte do Brasil. Ficou famosa por ter hospedado D. Pedro I e a Marquesa de Santos que lá pernoitavam numa rota comum de viagens que vinham ligava o de Paraty em direção a São Paulo e Minas Gerais pelo Caminho do Ouro.

A Casa Grande onde morava o senhor de engenho no nível superior, escravos e serviçais no nível intermediário e o entreposto onde haviam negociações e cobrava-se o "Quinto" no andar inferior, abriga um museu com acervo um pouco empoeirado e descuidado pelo seu valor histórico, de mosquetões, bacamartes, móveis antigos e utensílios domésticos. Na cozinha é servido um café com açúcar mascavo.

Do museu, siga em direção ao alambique, que está localizado no exato local onde dormiam os escravos. A fazenda ainda oferece razoável estrutura de trilha pela Mata Atlântica, Cavalgadas, tirolesa, arvorismo, cachoeiras, poços e restaurante.

Trilha pelo antigo Caminho do Ouro

Nos arredores do centro existe o morro do forte e um tímido museu que conta a história dos primeiros portugueses que chegaram nessa região chamada de Pequeno Golfo (Lagamar). A vila pertenceu a Angra dos Reis até 1667, viveu a opulência comercial do ciclo do ouro e depois do café e amargou anos de decadência no final do século XIX e XX. A cidade que você vai explorar é Monumento Nacional desde 1966 e candidata ao título de Patrimônio da Humanidade, reconhecimento ao centro histórico com casarios coloniais, ruas num sistema maçônico de divisão de quadras (guias falam na mística do número 33 de ruas e quadras), igrejas e o museu da antiga cadeia, além do pequeno mercado e do porto.

Depois de um longo passeio pelo circuito histórico, garanta com antecedência ingressos no Teatro Espaço para um espetáculo do Teatro de Bonecos do Grupo de Contadores de Estórias dirigido pela família Ribas, reconhecidos nacional e internacionalmente. Apresentação curta e cara (cerca de 60 Reais), mas de tirar o fôlego. Acaba com uma sensação que as miniaturas são humanas e reais.

loja de artesanato na área remanescente de quilombo em Paraty

Turismo étnico – Não deixe de explorar a região sentido BR 101 (Rio-Santos), mas cautela se estiver ao volante – são as famosas curvas. Visite Paraty-Mirim,  local de fundação da cidade. No caminho você reencontra os índios guaranis que olhou vendendo artesanato nas ruas da cidade. Ao passar pela reserva, evite fotografar ou entrar sem um contato e permissão prévia.  Não muito longe dali você visita O Quilombo Campinho da Independência que oferece um tour pela comunidade. Casa de farinha, agrofloresta, trilhas, griós, casa de artesanato, cachoeiras, núcleos familiares, além de restaurante. Tente conversar com o pessoal da comunidade e se interar das questões sociais e festas nos terreiros.

A foto fala por si própria. Foto: Marcus Saldanha

Comidas – A essa altura você já experimentou vários pratos locais a base de peixes, camarão e banana nativa e já visitou restaurantes populares e refinados. Fatalmente ficou algum tempo esperando um lugar (durante a Flip os restaurantes são disputadíssimos) ou ficou o dia inteiro petiscando na praia. À noite, certamente você deixou  a dieta de lado para experimentar os doces vendidos na rua ou o Pasteloni no trailer na esquina da ponte sobre o rio Parequê-Açu. E sobretudo, provou as tradicionais cachaças da terra feito em alambiques locais.
Atenção! Se quer gastar pouco, busque restaurantes fora do centro histórico, lá você encontra self-services a preços populares. 

trilhas moderadas e praias paradisíacas no vilarejo de Trindade.  Foto:Marcus Saldanha

Belezas Naturais – Paraty oferece muito mais que história, são inúmeras ilhas da Baía de Paraty que podem ser exploradas em passeios de escunas com saídas regulares do cais no centro da cidade, opções de mergulho a preços razoáveis  num mar frio, passeios e trilhas por praias paradisíacas e vilarejos no melhor estilo anos 70 ou condomínios de milionários.

As praias urbanas de Jabaquara e Pontal nem de longe são as melhores de Paraty. Nelas você encontra pousadas, albergues, restaurantes e bares.  Para ir mais longe, alugue um carro numa locadora da cidade ou caso não se importe em dividir o ônibus com dezenas de estudantes (eles não estarão de férias durante a FLIP) vai pagar por volta de 3 reais a passagem. Eles saem regularmente da rodoviária com destino a vila de pescadores de  Trindade (Praias do Cachadaço, do Meio, do Cepilho, Fora – há áreas para camping) e Laranjeiras (do Sono, Antigos e Antiguinhos). 

Há muitas outras praias no sentido Paraty-Mirim e Paraty-Angra dos Reis. Apesar da violência que atinge a maioria das cidades brasileiras, não hesite em pedir carona durante a FLIP. É comum os moradores oferecerem para turistas e moradores aquela carona amiga.

Não muito longe - Fechando sua estadia em Paraty não se intimide a explorar outras localidades na região. Você poderá seguir para a pacata e serrana cidade paulista de Cunha (informe-se sobre as condições da estrada, ela já esteve fechada por conta de uma tromba dágua em 2009) para curtir o frio e a vida rural ou seguir em direção ao litoral paulista – Ubatuba, Ilhabela e São Sebastião que ficam no caminho para São Paulo. (Viação Pássaro Marrom)

Quem disse que não é possível um passeio em família que agrade a todos os gostos, desde os mais intelectuais até os mais descolados e aventureiros. Crianças, adolescentes e o casal voltarão com boas recordações de férias em Paraty e região.

# Fincamos bandeira

Em julho de 2009 percorremos Paraty com um Mochilão. Das várias lembranças dessa viagem que começou no Rio de Janeiro e seguiu por Paraty, Ubatuba e São Paulo destaco o anoitecer dentro de um ônibus municipal voltando de Trindade a Paraty. O motorista não se acanhou de desligar as luzes do veículo e parar o ônibus em direção ao mar para que todos desfrutasse o luar. Era lua cheia e aquela atitude inesperada foi uma grande presente a todos os passageiros.

Clique aqui e veja todas as fotos de Paraty no álbum Marcus Histórico no Flickr.